terça-feira, 10 de agosto de 2010

tal qual a luz na foto.



"No final das contas, eu não sei muita coisa mais não. Não sei se esse "não saber" é voluntário, propositado, por assim dizer. Não sei se é referência própria, se é ao modo como levei, levo ou gostaria de levar as coisas. Não identifico se é um descaso pelo dia-a-dia.
Mas esse "não sei" não é pesado nem negativo. É normal. Tem hora que vem como um vento que faz bater a porta, tem outra que mais parece um passarinho que passou voando lá fora na janela.
Acho que é a incapacidade de prever e a constatação de que não se pode direcionar.
É um impulso mudo, invisível, que puxa como se fosse uma corda muito, mas muito longa. Tão longa que nunca se sabe ao certo quem ou o quê está no nosso caminho. E se esse caminho pelo qual, teoricamente, devemos ou seguimos, é simples e sem pontas, sinuoso e espetado.
Como um amigo uma vez falou sobre algo que nos mostra que não temos noção do alvo a ser atingido, mas sim que somos a flecha lançada e que estamos indo em alguma direção, que seja.
Espero que toda essa inquietação inerte que sinto continue e que a placidez não se dissolva.
Isso me faz mais firme, no chão e nas nuvens.
Isso me dá mais forte nas brigas e nas paradas.
Isso deixa silêncio de sobra para ouvir essa música toda, linda, que não pára um segundo sequer e que não me sai das vistas como o amor que vem chegando lá no portão."

domingo, 8 de agosto de 2010

O fim da tarde que fez...

"Ontem teve samba do início ao fim do dia. Teve cerveja também.
O céu tava tão azul que dava vontade de ficar olhando pra cima o tempo todo. E o sol, o vento e o cheiro do dia me puxaram pra fora de casa, direto pra rua.
Um dia tão luminoso que só que se via eram janelas abertas, cachorros na rua, de rabo abanando, criançada barulhenta e sorrisos nas calçadas. Todo mundo ficou bonito, feliz e elegante.
Ao mesmo tempo que não tinha, não fez falta uma mão pareada com a minha, ou um punhado de cabelos pra ganhar um cafuné meu. O dia lindo supriu e fez cantar com tanto sorriso e agradecer com tanto calor que as mãos ardiam de tanta palma depois de cada Adoniran Barbosa ou Nelson Sargento ou Cartola que saía daquele violão.
E eu ia atrás da notas, tentando pegá-las, como que com uma rede de quem caça borboletas. ia pegar e botar no travesseiro.
Ia deixar várias no bolso também, para distribuir a quem merecesse ou estivesse precisado.
Talvez tais notas serviriam de trilha sonora para minhas manias de flertar por aí, na luz bonita das seis e meia..."

sábado, 7 de agosto de 2010

samba de aurora


"Escrever de manhã é sinal de unha encravada ou de zica no caminho. Parece crendice popular, sol com chuva, casamento de viúva. Mas então, sinal de que algo muito bom vai acontecer ou algo de muito chato está incomodando. Infelizmente fico com a segunda opção, mas vou tentar não deixar transparecer (mentira).

Acontece que acordei refazendo os passos que dei ontem, certos ou errados, diga-me quem tiver presenciado. A princípio, o que me tirou da cama foi o desvio de rumo, porque "não há outros motivos pra atrasar objetivos mais precisos" que te faça mais mal quanto aquele que te bota fazendo papel de bobo e de algo que você não é.
Aí tudo isso que você escutou sem precisar, sem ter dado motivo ou deixa para que falassem, te faz sentir feito um sapo trouxa que se deixou ser pego e socado dentro dum pote. Te faz sentir um mané, strictu sensu, que, mais uma vez, desvia tão facilmente dos objetivos.
Depois inventa moda, tentar reparar coisas que não aconteceram, à distância e fora de hora. E faz isso sabendo que não vai funcionar.

Sorte que depois de tudo vem um frase, uma só, que te enche os olhos e te faz precisar dum abraço. Daí toca um samba lindo e você vê que isso é que faz a poesia de viver.
E você vê que não fez nada de errado, não magoou ninguém.
Vê que você só foi você."

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Faça bom uso

"Relendo muito do que já resolvi escrever, aqui e em papéis na gaveta, vejo que durante todo esse tempo tenho relido a mim mesmo, a cada parágrafo que sai. Me agradando ou não, os parágrafos me servem de espelho, de apoio e de bronca.
E me relendo eu me resolvo, me defino e me aquieto. Paro de ficar caçando sarna pra coçar e trato de curar as que ainda coçam, seja com ivomec ou cachaça. Não sei qual dos dois tem funcionado melhor, mas garanto que surtem efeito.
Outras coisas também têm surtido tanto ou mais efeitos que o previsto.
Curas milagrosas que se encontram em qualquer esquina, ônibus ou caixa de email. Remédios e pajelanças ancestrais, infalíveis em qualquer caso, seja crise de riso ou ataques de choro. Curam amores doídos, saudades que beliscam e vontades que tiram o sono.
Pra essa medicina, mais que popular e tradicional, não precisa ingredientes miraculosos, trazidos de reinos distantes por andantes cavaleiros. E não tem o risco de ser levado à fogueira por inquisidores invejosos.
Cura-se rápido, mas nem sempre indolor. O choro pode ser parte integrante, porém indispensável e responsável pela cura em muitos dos casos.
Esse remédio não tem na farmácia, mas também não tem contra-indicação. Overdose dele não é letal, mas o oposto.
Recomenda-se tomar com abraços, carinhos, cafunés ou beijocas. Com todos juntos também vale, mas já aviso que esquenta mais que febre e desnorteia mais que pinga.
De qualquer forma, vale a pena."

terça-feira, 3 de agosto de 2010

e não é que é?

"Bom, quando me dei conta que estava ouvindo música, percebi que eram uns doidão lá de Seattle que tocavam o terror no palco e onde quer que estivessem.
Depois, começei a escutar cinco cabeludos da Inglaterra, que tinham um zumbi por mascote. É, zumbi, isso mesmo.
Depois desses, ouvi outros cabeludos, também do Reino Unido, onde o cantor gostava de comer morcegos vivos. Daí descobri uns caras aqui de BH mesmo, que faziam um puta som da pesada! Eram quase vizinhos e eu não sabia. Nessa época me apresentaram uns figuras americanos que tocavam musiquinhas mais curtas, impossíveis de esquecer, igual calçar o allstar pra ir pra escola. Não dei muita bola no começo, mas como eu disse, não parava de cantar as músicas deles um segundo sequer. A partir disso foi uma cacetada de bandas de cabeludos, bem pesadas, umas tinham logotipos tão embaraçados quanto o cabelo dos respectivos integrantes.E se não me engano, essas eram bandas dos estaduzunidos, em sua maioria, rs.
O que mais gostei de ouvir foi um negão canhoto nascido em Seattle e morrido em Londres. Esse
tocava guitarra que era uma beleza! Até hoje arrepio escutando o que ele aprontava.
Conheci gente nova, e com isso, banda nova. Dessa vez foram uns malucos da Califórnia, que tocavam bem rápido e com poucos acordes. Bem legal, dava pra agitar um bocado! Daí ouvi também uns mulekes da Inglaterra, todos cheios de alfinetes e tal...legalzim o som. Mas o som dos quatro de calça jeans e couro era melhor, sem dúvida! Fui procurar mais coisa parecida, e acabei chegando a coisas da Bélgica, Holanda, Alemanha e tal, muito mais rápido, com pouquíssimos acordes também. E como gritavam, os danados! Nessa levada, chegou na minha mão um disco duns conterrâneos, onde até esmeril virava instrumento.
Aos poucos fui descobrindo umas bandas que faziam um som meio que parecido, mas melhor que os caras da Europa. Tinha uma galera da boa em São Paulo capital, ABC paulista, e acabei conhecendo gente que nem eu e que também queria fazer um som parecido, gente de norte a sul do Brasil, só que nós gravávamos em fita. E era um tal de manda fita pra lá, recebe fita de cá...
Nessa mesma época, talvez paralelamente, me veio a vontade, sei lá de onde, de saber o que diabos um véio barbudo, alagoano dos brabo, fazia de som. Foi a melhor coisa que já tinha ouvido até então, depois e junto com o canhoto-guitarrista.
Junto com esse fui atrás de outros malucos que tocavam trompete, piano, sax e afins, tanto gringos quanto brasileiros. Ouvi uns caras que mandavam bem no violão, bem melhor que os cabeludos nas guitarras.
Passei por uns caras, três amigos, garotos ainda, de NY, depois outros dois, que pelo nome deviam ser irmãos, e que a química entre eles era bem bacana. Prodígios, uns caras e uma mina, que eram da Alemanha (mas que não podiam tocar lá), que aprontavam uma zueira dos infernos, boa!
E mais tantos doidões fazendo música sem instrumentos de verdade. Até ir ouvir os caras tocarem no meio do mato, de madrugada eu fui, a pedido de uma ex-namorada.Dessa turma ouvi um punhado de bandas, que hoje sei que são "estilos", "vertentes" e etc, toda essa conversa de gente que manja de som.
Ao mesmo tempo eu ouvia, em casa, meio que às escondidas, um doidão que sumiu pela
Índia e voltou, com a cítara e a tabla; ouvia também o já mencionado velho barbudo, o que irritava a supracitada namorada.
Depois, acho que meus ouvidos tavam cansados de tanta pauleira, que procurei algo mais calmo e mais linear pra ouvir nos fones de ouvido...descobri um paulistano que andava de skate e que fazia umas letras rimadas certinho, com uma métrica espetacular e cheias de elementos bem cotidianos.
Daí conheci mais coisa que brasileiro fazia, com pandeiro, violão e palavras, também bunito que só. Conheci três gatonas, balzacas que cantavam músicas que pareciam do tempo da minha vó. E também uns caras do sul que faziam música que se cantava dando risada e falando palavrão.
O mestre das festas universitárias do nordeste também tocou lá em casa, irritando e acordando muita gente, por sinal. Do nordeste e centro-oeste também ouvi um bom punhado de bandas bacanas pra danar! E aqui em BH descobri mais um maluco de NY que misturava faixas e mais faixas e trechos de vídeo e oscambau, bão tamém! E na sequência descobri um que fazia parecido e até melhor ao vivo, aqui perto de casa e com um controle de videogame.
Disso eu fui parar na Jamaica, ouvindo música boa e cheia de chiados, em disquinhos pouco maiores que um cd - que era o que havia de melhor em "primor e qualidade" na época dos cabeludos. Esses pratinhos de vinil, com uma faixa de cada lado, rapaz, que sonzera tem ali! E dali de volta pros negão dos trompete, foi um pulo. Nessa veio outro paulistano que rima e improvisa com uma facilidade sem igual, e que canta palavras bonitas que dá vontade de ter uma namorada pra usar os versos dele pra ela.
Apareceram também umas minas, bonitinhas, com vozes bem legais, uma tocando harpa, outras violão e cantoria. Uns quatro ou cinco, ou seis negrões, tocando sem ligar na tomada, e por aí tô indo...

Bom, isso é o que eu consegui me lembrar e o que consegui descrever, porque teve nesse meio tempo, uma caçambada de som que acabo de me lembrar, mas que não sei como descrever. Engraçado como a gente ouve tanta coisa, esquece outro tanto...e quando se dá conta, já ouviu coisa pra caramba!
E quanto a você?"

domingo, 1 de agosto de 2010

Chega.

"tem hora que tudo cansa e desgasta. Palavras dispensáveis criando situações desnecessárias. Mal-estar, chateação e vontade de chorar, sem motivo, apenas pelos acontecimentos que resolveram acontecer.
Uma ausência que não se traduz ou se mascara. Uma e várias faltas que se apresentam a cada momento, gerando tristezas e engasgos que não têm nome por quem sejam resolvidos. Essa é a falta, um ombro, abraço, encosto, colo. Falta isso e a cada dia finjo que aprendo a lidar com tal problema. Quero, queria um outro coração, outro diafragma do qual eu pudesse acompanhar o subir e descer das costelas. Um jogo de dedos que apertasse aos meus com força e seriedade. Um par pálpebras que eu pudesse fechar com um, dois ou três beijos roubados.
Me falta alguém a quem roubar beijos.
Só."





P.s.: por enquanto cansei disso, não é nada pessoal.

outro

"Engraçado como surgem mudanças tão significativas de uma forma tão suave. Coisas e acontecimentos que te puxam de dentro do marasmo que deixamos que se forme de tempos em tempos. Nos levam à superfície de nossos olhos, os quais esquadrinham todo o horizonte em busca do conhecimento.
Trazem para perto certezas, decisões e coragens.
Nos botam cara a cara com a vida, para que paremos com a mediocridade de negar os desafios que aparecem.
Aos poucos percebemos que o mundo não é justo. E que também não é injusto. Apenas é.
Caberia a nós julgarmos os resultados? Adequá-los à nossa conveniência?
Fazemos isso sempre, na esperança de um entendimento imediato do desenrolar dos fatos, o que nos faz amaldiçoar aos quatro ventos toda nossa existência.

Demora para que as coisas tomem seu formato devido.
E demora ainda mais para que nós, inquietos e teimosos, percebamos o lugar de cada uma dessas coisas e a sequência que todas elas formam."