"Paradoxos à parte, ontem meu coturno morreu, coitado. Depois de dezesseis anos de muito barro, cerveja e shows, o véio não aguentou e entregou os pontos, literalmente - a sola se abriu como uma bocarra de jacaré, um dos lados do cano rasgou-se em mais ou menos um palmo de extensão, fora os buracos espalhados. Quando reparei que tinha rasgado, já indo abrindo a boca pra xingar, quando pensei: "Peraí, tenho essa merda desde meus treze anos! Já tava passando da hora de rasgar!"
É com essa constatação que me veio à cabeça outra forma de pensar, de levar e de agir. Tem coisas que arrastamos conosco durante um tempo enorme, senão por toda nossa vida, das quais não nos damos conta que já tiveram seu tempo, que está na hora de deixarmos tais coisas irem embora. É inevitável, tudo vai ter que acabar. Tudo tem que ser acabado. E acho que mais importante, temos que aprender a acabar com as coisas, a reconhecer os prazos de validade, a ignorar os laços sentimentais, às vezes fruto da convivência, que nos atam a peças que já perderam seu valor. É hora de andar. Buscar o novo, o desacostumado e o ainda estranho a nós mesmos. Hora de encontrar algo que nos deixe intrigado com suas manias e trejeitos. Alguém que nos deixe curioso e inquieto, em busca de mais detalhes explicativos de seu funcionamento.
Busca-se laços, às vezes à força, nos enlaçamos sem saber ou querer. Laços, voltas, tranças e nós, daquele tipo que apertamos forte pra ter certeza que não vai soltar. Nos embaraçamos mais e mais, indiferentes aos avisos e sinais cegos à razão e felizes pelo fazer, pelo ser, pelo existir. Ansiosos por sentir, nos enredamos em cordas e barbantes, qual um filhote de gato e seu novelo de lã, absortos no deleite, hipnotizados pela insistência em nos confundirmos ainda mais num redemoinho de fios à nossa volta."
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
"Sonhei com cachorro, de novo. Dizem que é sinal de dinheiro à vista; por mim podia ser sinal de cachorro à vista. Ia ser muito mais legal!
Nunca imaginei que ia sentir tanta falta de um pulguento safado por perto.
Cachorro é tipo um melhor amigo que não fala, sabe? Mas sabe te consolar de uma maneira inconfundível e indefinível. É bom isso.
Acordar de mau humor e ver que ele não tá nem aí para isso.
Chegar em casa encharcado, pego de surpresa pela chuva, e o bendito faz questão de te dar aquelas duas patadas no ombro.
Sentir-se triste, sentar em qualquer beiradinha e lá vem ele, com algo na boca, seja um sorriso ou algum brinquedo babado.
Distrair-se um instante e ser cutucado com um focinho gelado.
Se cansar de tanto pular e correr atrás dele, esbravejando de mentirinha.
Sair pra passear e tomar milhões de puxões e trancos na guia, até que o descoordenado se acalme.
Chegar do passeio e vê-lo pular no pote d'água e sapatear, quando todos achavam que ele iria beber água.
Resolver dar banho e querer deixar tudo pela metade, pois o sacana não sossega um instante.
Esquecer um prato com qualquer coisa ao alcance e perceber que, segundos depois, o prato está limpinho.
Fazer pipoca e saber que logo vem um co-piloto pra vigiar as que caírem no chão.
Assistir aos comportamentos mais estranhos e inexplicáveis que você pode imaginar.
É mais ou menos isso."
Nunca imaginei que ia sentir tanta falta de um pulguento safado por perto.
Cachorro é tipo um melhor amigo que não fala, sabe? Mas sabe te consolar de uma maneira inconfundível e indefinível. É bom isso.
Acordar de mau humor e ver que ele não tá nem aí para isso.
Chegar em casa encharcado, pego de surpresa pela chuva, e o bendito faz questão de te dar aquelas duas patadas no ombro.
Sentir-se triste, sentar em qualquer beiradinha e lá vem ele, com algo na boca, seja um sorriso ou algum brinquedo babado.
Distrair-se um instante e ser cutucado com um focinho gelado.
Se cansar de tanto pular e correr atrás dele, esbravejando de mentirinha.
Sair pra passear e tomar milhões de puxões e trancos na guia, até que o descoordenado se acalme.
Chegar do passeio e vê-lo pular no pote d'água e sapatear, quando todos achavam que ele iria beber água.
Resolver dar banho e querer deixar tudo pela metade, pois o sacana não sossega um instante.
Esquecer um prato com qualquer coisa ao alcance e perceber que, segundos depois, o prato está limpinho.
Fazer pipoca e saber que logo vem um co-piloto pra vigiar as que caírem no chão.
Assistir aos comportamentos mais estranhos e inexplicáveis que você pode imaginar.
É mais ou menos isso."
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
"Gente medíocre no supermercado.
Eu no supermercado.
Plástico demais.
Gasto demais.
Penso demais.
Sinto demais.
Não quero.
Não vou.
Vou deixar.
Vou largar.
Vou sumir e estudar.
Vou aceitar.
Tudo.
Vou resignar.
Vou conformar.
Seguir sem sentir.
Seguir sensato.
Fingir sensato.
Andar sensato.
Calar.
Doer.
Olhar e andar. Pra longe disso.
Pra perto de mim."
Eu no supermercado.
Plástico demais.
Gasto demais.
Penso demais.
Sinto demais.
Não quero.
Não vou.
Vou deixar.
Vou largar.
Vou sumir e estudar.
Vou aceitar.
Tudo.
Vou resignar.
Vou conformar.
Seguir sem sentir.
Seguir sensato.
Fingir sensato.
Andar sensato.
Calar.
Doer.
Olhar e andar. Pra longe disso.
Pra perto de mim."
"Choque de realidade durante a madrugada. Fazia tempo que não aconteciam. Fazia tempo que não perdia o sono assim.
- É, é a idade chegando. Discordo.
Choque ao encarar que está na hora, infelizmente, de abandonar uma parcela muito significante da minha vida. Está na hora de deixar sumir, esmaeçer. E dói saber que é o mais sensato a fazer.
Não, não é crise de piedade.
É confuso e angustiante ver isso acontecer. Geralmente só percebemos isso depois, quando vamos procurar por algo e vemos que se foi, se perdeu. Mas ver o processo em ação, ver as coisas se esvairem pelos dedos, ver que não dá mais para viver com a cabeça lá e aqui. Não dá.
Falar nisso, me faz sentir conformado demais, uma vez que sempre questionei a necessidade da sensatez.
- Você está racionalizando demais as coisas.
Às vezes sinto como se minha função por lá tivesse acabado, que me mudaram de turno. Sinto que não tem por que esforçar, ajudar, consolar ou intrometer em assuntos nos quais minha opinião não vai fazer a mínima diferença - patético isso. Eterna mania de pensar que é indispensável.
- Ninguém vai ter pena de você, me disseram uma vez.
Sinto pena de mim mesmo por ficar imaginando se fui embora e deixei alguém lá que espera por mim. Ridículo.
- Vai te fazer bem, dizem.
..."
- É, é a idade chegando. Discordo.
Choque ao encarar que está na hora, infelizmente, de abandonar uma parcela muito significante da minha vida. Está na hora de deixar sumir, esmaeçer. E dói saber que é o mais sensato a fazer.
Não, não é crise de piedade.
É confuso e angustiante ver isso acontecer. Geralmente só percebemos isso depois, quando vamos procurar por algo e vemos que se foi, se perdeu. Mas ver o processo em ação, ver as coisas se esvairem pelos dedos, ver que não dá mais para viver com a cabeça lá e aqui. Não dá.
Falar nisso, me faz sentir conformado demais, uma vez que sempre questionei a necessidade da sensatez.
- Você está racionalizando demais as coisas.
Às vezes sinto como se minha função por lá tivesse acabado, que me mudaram de turno. Sinto que não tem por que esforçar, ajudar, consolar ou intrometer em assuntos nos quais minha opinião não vai fazer a mínima diferença - patético isso. Eterna mania de pensar que é indispensável.
- Ninguém vai ter pena de você, me disseram uma vez.
Sinto pena de mim mesmo por ficar imaginando se fui embora e deixei alguém lá que espera por mim. Ridículo.
- Vai te fazer bem, dizem.
..."
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
"Precisava sair, mas estava com medo de encontrar, por acaso, quem ele não queria. Queria mas não queria, queria mas sabia que não devia.
Embatucado com a questão, saiu, temeroso porta afora, como um animal que sai de sua jaula pela primeira vez. Saiu, decidido a tomar caminhos diferentes dos usuais.
Talvez tenha sido isso que lhe pôs um sorriso novo na cara. Tal como o animal recém saído da gaiola, agora eram as surpresas em potencial que lhe agradavam. Ansioso e inquieto, seguiu em frente, quase inconsciente, rumo a seu destino. Ruas, casas, árvores e calçadas diferentes. Pessoas, cachorros e até o canto dos passarinhos se mostrava novidade.
Aonde ia já não tinha mais importância, o fim era simplesmente o ato de ir, o caminho.
Seguiu em paz, contornando quarteirões e praças, ouvindo as rotinas de vizinhanças desconhecidas. Outros horários de almoço, outras melodias nos rádios, outras crianças dando risadas.
Sentiu como se tivesse mudado de cidade, de estado. Sentiu-se livre e anônimo. Sentiu-se por completo.
Se chegou a seu destino, nem mesmo ele saberia dizer. Agora seu destino não era apenas um; eram todos os possíveis, todos os pontos que pudessem ser chamados de "aonde ir" e que merecessem uma pausa. Mercearias, lojinhas de badulaques e botecos se apresentavam e convidavam. A vida em si, parecia mais animada por aqueles lados.
Você ainda pode encontrá-lo, hoje ou amanhã, por algum caminho que esteja seguindo. Se o vir, mande um abraço meu."
Embatucado com a questão, saiu, temeroso porta afora, como um animal que sai de sua jaula pela primeira vez. Saiu, decidido a tomar caminhos diferentes dos usuais.
Talvez tenha sido isso que lhe pôs um sorriso novo na cara. Tal como o animal recém saído da gaiola, agora eram as surpresas em potencial que lhe agradavam. Ansioso e inquieto, seguiu em frente, quase inconsciente, rumo a seu destino. Ruas, casas, árvores e calçadas diferentes. Pessoas, cachorros e até o canto dos passarinhos se mostrava novidade.
Aonde ia já não tinha mais importância, o fim era simplesmente o ato de ir, o caminho.
Seguiu em paz, contornando quarteirões e praças, ouvindo as rotinas de vizinhanças desconhecidas. Outros horários de almoço, outras melodias nos rádios, outras crianças dando risadas.
Sentiu como se tivesse mudado de cidade, de estado. Sentiu-se livre e anônimo. Sentiu-se por completo.
Se chegou a seu destino, nem mesmo ele saberia dizer. Agora seu destino não era apenas um; eram todos os possíveis, todos os pontos que pudessem ser chamados de "aonde ir" e que merecessem uma pausa. Mercearias, lojinhas de badulaques e botecos se apresentavam e convidavam. A vida em si, parecia mais animada por aqueles lados.
Você ainda pode encontrá-lo, hoje ou amanhã, por algum caminho que esteja seguindo. Se o vir, mande um abraço meu."
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
"Tomei gosto por chuva quando voltei. Antes eu não gostava tanto.
Passei a gostar, a sentir falta, até.
Chuva fina e morna, pesada-gelada, com vento e pedrinhas de gelo misturadas.
Chuva tem me feito pensar e recordar.
Nutrindo e suprindo o que possa estar faltando. Sempre falta algo.
Chuva lembra sapo, que lembra mato, que lembra noite escura e estrelada.
Estrelas brilhantes num pano opaco, furado por ruídos que só a noite tem ou faz.
Noite escura assusta e acalma ao mesmo tempo. Lembra inquietação ao passo que nos envolve e nos convida.
Convida ao chá mate, ao violão.
Nos faz lembrar de atiçar o fogo, senão o banho é gelado.
Noites assim são boas para se ver a silhueta das montanhas contrastando com a luzinha fraca do céu.
Chuva também lembra café de caneca, lembra braços arrepiados de repente, sejam meus ou nossos.
Lembra alguém dentro do abraço e no caminho da boca.
Lembra um beijo na orelha, sem estalar, porque estalado não combina com chuva; tem que ser beijo manso, beijo-cafuné.
E cafuné, talvez vocês não saibam, mas lembra uma colcha de retalhos que tenho aqui, daquelas da vovó - que esquentam esfriando e vice-versa.
Isso tudo lembra suspiro, e suspiro, irremediavelmente, me lembra chuva."
Passei a gostar, a sentir falta, até.
Chuva fina e morna, pesada-gelada, com vento e pedrinhas de gelo misturadas.
Chuva tem me feito pensar e recordar.
Nutrindo e suprindo o que possa estar faltando. Sempre falta algo.
Chuva lembra sapo, que lembra mato, que lembra noite escura e estrelada.
Estrelas brilhantes num pano opaco, furado por ruídos que só a noite tem ou faz.
Noite escura assusta e acalma ao mesmo tempo. Lembra inquietação ao passo que nos envolve e nos convida.
Convida ao chá mate, ao violão.
Nos faz lembrar de atiçar o fogo, senão o banho é gelado.
Noites assim são boas para se ver a silhueta das montanhas contrastando com a luzinha fraca do céu.
Chuva também lembra café de caneca, lembra braços arrepiados de repente, sejam meus ou nossos.
Lembra alguém dentro do abraço e no caminho da boca.
Lembra um beijo na orelha, sem estalar, porque estalado não combina com chuva; tem que ser beijo manso, beijo-cafuné.
E cafuné, talvez vocês não saibam, mas lembra uma colcha de retalhos que tenho aqui, daquelas da vovó - que esquentam esfriando e vice-versa.
Isso tudo lembra suspiro, e suspiro, irremediavelmente, me lembra chuva."
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