"Disse lhe que ia sair, mas que não sabia a que horas voltaria. Perguntou-lhe se deveria esperar em casa, acordado, ou se também poderia ir pra rua. Ela não soube responder, sua inquietação acabou deixando ambos confusos. Percebeu que cada um acabaria tomando um rumo diferente.
Há muito que não se falam, abertamente, sobre o que lhes aflige. Deixam isso para as pequenas implicâncias cotidianas - as manias de cada um, os não-feitos e os lapsos.
Ele sai com o cachorro, mesmo com o chuvisco da noitinha que começa; pega duas mochilas, a sua e a do cão, veste sua capa de chuva e pega o brinquedo. Saem para brincar, sem saber onde.
Já ela, desce a rua em sentido oposto, num passo apressado e tenso. Dois quarteirões adiante, toca o interfone de um pequeno prédio, onde duas amigas-irmãs, ou irmãs-amigas, moram. Demora um pouco e ela entra, sacudindo a sombrinha do lado de fora.
A noite se prolonga com o fim da chuva e os bolinhos, de chuva, que já estavam a caminho. A capa se torna um incômodo abafado e os bolinhos ficam como que deslocados do contexto. Celulares estão de castigo no fundo das bolsas, calados, enfim.
No apartamento térreo, com jeito de casa do interior, dois gatos preguiçosos vigiam a rua sem o menor interesse nos chamados das donas. Já na praça, deserta por enquanto, o cachorro se diverte como quem vê o mar pela primeira vez. O brinquedo pendurado no canto da boca, dividindo espaço com um sorriso canino.
Nesse momento os seus olhos se cruzam, à distância, quando ambos olhares se cruzam com os olhares vivos do cão e dos gatos. Nessa hora eles se conectam e se precisam.
Ela digita uma mensagem com um gato no colo enquanto ele liga, sua outra mão brigando por um brinquedo babado de borracha.
Olhando de cima e ao mesmo tempo seria possível ver um portão se abrindo e um um zíper de mochila se fechando. Dois beijos, dois abraços, duas promessas de amanhã eu te ligo, um rabo abanando e uma capa dobrada às pressas.
Não demora para se encontrarem na porta de casa.Nesse instante desaba a chuva, que parecia esperar que estivessem no alpendre para lavar o mundo de novo."
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
domingo, 29 de novembro de 2009
precário e/ou patético?
"Boa pergunta.
Se é precário ou patético, por quê? Por esperar coisas que não se esperam? Ou por achar que vai conseguir enfiar na cabeça dos outros que ser bom não é errado nem faz mal?
Minto, ele não espera, ou pelo menos se obriga a não esperar. Ele se força a seguir em frente, ele força sua adaptação ao novo endereço, colchão e vista da janela. Se obriga a não desejar amores ou alegrias. Apenas a conseguir seguir em paz, em linha.
De tudo que passa por sua cabeça, a solidão declarada, inegável, é a que mais confirma sua presença, todos os dias, em qualquer caminho que ele faça. Mesmo não estando literalmente sozinho, ele sente necessidade de mais, de algo mais, de tudo mais, apesar de não saber quais itens comporiam seu todo.
Por mais que saiba e sinta os benefícios de estar assim, quase sozinho, ainda assim ele reluta. Reluta em admitir que mudanças profundas estão a caminho, já há algum tempo. Reluta em crer que tudo vai se ajeitar.
Em diversas ocasiões ele se pega de surpresa, constatando significados das coisas simples que o cercam, mas que nem sempre é dado o devido crédito.
Coisas como equilíbrio em dia de chuva fria e sol se revelando no céu lavado.
Coisas como conseguir definir coisas boas em que pensar, quando memórias persistentes resolverem clamar um lugar.
Coisas que cansam, doem e fazem suspirar.
Por outro lado, coisas o fazem sorrir - flertar, sorrir e elogiar, recebendo um sorriso tímido de volta - deixando um rastro de tranquilidade e abastecendo o coração com um novo estoque de palavras, às vezes esquecidas.
Está na hora, mais uma vez, de esticar as pernas, espreguiçar e deixar de lado as expectativas, as teimosias de ter tudo na hora em que se resolve querer. Deixar os tremores e ansiedades desnecessárias em qualquer canto, junto com memórias teimosas e cicatrizes.
Está na hora de se por à prova."
Se é precário ou patético, por quê? Por esperar coisas que não se esperam? Ou por achar que vai conseguir enfiar na cabeça dos outros que ser bom não é errado nem faz mal?
Minto, ele não espera, ou pelo menos se obriga a não esperar. Ele se força a seguir em frente, ele força sua adaptação ao novo endereço, colchão e vista da janela. Se obriga a não desejar amores ou alegrias. Apenas a conseguir seguir em paz, em linha.
De tudo que passa por sua cabeça, a solidão declarada, inegável, é a que mais confirma sua presença, todos os dias, em qualquer caminho que ele faça. Mesmo não estando literalmente sozinho, ele sente necessidade de mais, de algo mais, de tudo mais, apesar de não saber quais itens comporiam seu todo.
Por mais que saiba e sinta os benefícios de estar assim, quase sozinho, ainda assim ele reluta. Reluta em admitir que mudanças profundas estão a caminho, já há algum tempo. Reluta em crer que tudo vai se ajeitar.
Em diversas ocasiões ele se pega de surpresa, constatando significados das coisas simples que o cercam, mas que nem sempre é dado o devido crédito.
Coisas como equilíbrio em dia de chuva fria e sol se revelando no céu lavado.
Coisas como conseguir definir coisas boas em que pensar, quando memórias persistentes resolverem clamar um lugar.
Coisas que cansam, doem e fazem suspirar.
Por outro lado, coisas o fazem sorrir - flertar, sorrir e elogiar, recebendo um sorriso tímido de volta - deixando um rastro de tranquilidade e abastecendo o coração com um novo estoque de palavras, às vezes esquecidas.
Está na hora, mais uma vez, de esticar as pernas, espreguiçar e deixar de lado as expectativas, as teimosias de ter tudo na hora em que se resolve querer. Deixar os tremores e ansiedades desnecessárias em qualquer canto, junto com memórias teimosas e cicatrizes.
Está na hora de se por à prova."
sábado, 28 de novembro de 2009
"Alma lavada. De novo. Com vodka e música.
Cara limpa, coração leve e barba feita.
Chuva fria em dia quente, o cheiro do chão sobe até o nariz e me enfeitiça. Dá vontade de me enterrar na terra úmida, macia.
O sono vem melhor, mais forte que antes. Vem e me pega de jeito.
Não sonho com nada, não que me lembre.
Acordo e me jogo de novo nessa coisa que chamamos vida."
Cara limpa, coração leve e barba feita.
Chuva fria em dia quente, o cheiro do chão sobe até o nariz e me enfeitiça. Dá vontade de me enterrar na terra úmida, macia.
O sono vem melhor, mais forte que antes. Vem e me pega de jeito.
Não sonho com nada, não que me lembre.
Acordo e me jogo de novo nessa coisa que chamamos vida."
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
"Velocidade espantosa das coisas em trânsito me faz ficar sempre surpreso.
Em menos de uma semana, tudo que eu queria ter ou ser ou fazer já sumiu quase completamente da minha cabeça.
Tomei decisões, desta vez firmes, que me assustei com minha convicção. Achei que ficaria com um aperto no coração ao pensar nisso, mas não. Fiquei e estou bem.
Óculos.
Menos viagens.
Mais viagens.
Atividades físicas.
Menos álcool.
Melhores companhias.
Mais capítulos.
Mais frutas e verduras e legumes.
Bonsai.
Jabutis.
Barba.
Cabelo.
Sem bigode.
Mais cores.
Mais música.
Mais dias e noites.
Mais rede.
Menos rede.
Prestar menos atenção.
Prestar mais atenção.
Dar mais valor.
Gostar menos.
Gostar mais.
montanhajanelaruabutecosamigosmarcachoeirasolchuvavento
gritarberrarrabiscarestudarpassarbebercomersubirdescerVIVER."
Em menos de uma semana, tudo que eu queria ter ou ser ou fazer já sumiu quase completamente da minha cabeça.
Tomei decisões, desta vez firmes, que me assustei com minha convicção. Achei que ficaria com um aperto no coração ao pensar nisso, mas não. Fiquei e estou bem.
Óculos.
Menos viagens.
Mais viagens.
Atividades físicas.
Menos álcool.
Melhores companhias.
Mais capítulos.
Mais frutas e verduras e legumes.
Bonsai.
Jabutis.
Barba.
Cabelo.
Sem bigode.
Mais cores.
Mais música.
Mais dias e noites.
Mais rede.
Menos rede.
Prestar menos atenção.
Prestar mais atenção.
Dar mais valor.
Gostar menos.
Gostar mais.
montanhajanelaruabutecosamigosmarcachoeirasolchuvavento
gritarberrarrabiscarestudarpassarbebercomersubirdescerVIVER."
terça-feira, 24 de novembro de 2009
"Diz uma parte de uma letra de uma música de um cara muito bacana - chamado Parteum - do qual já citei algo aqui, que diz o seguinte: "(...)Por mais que a gente pense diferente, a gente sente que em algum lugar do mundo tem alguém que pense igual à gente, que olha em volta antes de olhar pra frente(...)".
Pois então, é isso. Acho fundamental isso, apesar de não conseguir discorrer por muito tempo sobre esse tema.
Acho bacana, talvez baste."
Pois então, é isso. Acho fundamental isso, apesar de não conseguir discorrer por muito tempo sobre esse tema.
Acho bacana, talvez baste."
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Mais bagunça
"É impressionante como o humor muda de lado, não? O meu então, nem se fala. De manhã estava numa boa, disposto e tudo mais, agora no começo da noite estou inquieto.
Resolvi reler o post anterior e me senti simplesmente patético.
Proferindo elogios a um alguém que não existe; será isso algo como esperar que alguém apareça e clame tais palavras para si? Ou será apenas uma carência deslavada?
Uma coisa que posso dizer, com certeza, é que fico feliz por ter tantas boas lembranças que me fazem escrever coisas bonitas (a meu ver...). Isso me anima e empurra.
Mas quando consigo ver o que escrevi "de fora", sei lá. Me surge à cabeça justamente o nome do blog: precário.
Mas, peraí: agora me pergunto: o amor é precário? Amar é precário? Esperar um amor ou um alguém de tal forma é precário? Não sei responder. Alguma sugestão?
Confuso, muito confuso. Uma torrente de emoções sempre antagonistas, divergentes, ensurdecedoras.
Bem, sei lá o que vai sair disso tudo. Espero, pelo menos, que eu consiga sair."
Resolvi reler o post anterior e me senti simplesmente patético.
Proferindo elogios a um alguém que não existe; será isso algo como esperar que alguém apareça e clame tais palavras para si? Ou será apenas uma carência deslavada?
Uma coisa que posso dizer, com certeza, é que fico feliz por ter tantas boas lembranças que me fazem escrever coisas bonitas (a meu ver...). Isso me anima e empurra.
Mas quando consigo ver o que escrevi "de fora", sei lá. Me surge à cabeça justamente o nome do blog: precário.
Mas, peraí: agora me pergunto: o amor é precário? Amar é precário? Esperar um amor ou um alguém de tal forma é precário? Não sei responder. Alguma sugestão?
Confuso, muito confuso. Uma torrente de emoções sempre antagonistas, divergentes, ensurdecedoras.
Bem, sei lá o que vai sair disso tudo. Espero, pelo menos, que eu consiga sair."
"Um carinho faz falta. É o que tenho comentado bastante esses últimos tempos com um amigo aqui. Amigo mesmo, sem adjetivos. Aquele a quem se permite silêncios prolongados durante a conversa. Amigo amigo. Ponto.
Faz uma baita falta um carinho especial, um afago sincero e despreocupado. Um olhar que seja, um suspiro tão profundo que te faz suspirar junto, de puro êxtase. Pura alegria e agradecimento por tê-lo presenciado.
Faz falta um colo, um ombro, um aperto de estalar as costelas.
Faz falta aquele curto momento, primeiro momento quando se reencontra, em que se pára, estático, olhando, vendo através das coisas, vendo dentro de quem se reencontrou. Momento curto, mas que faz o tempo parar à nossa volta. Que faz o céu intensificar a sua cor no momento, faz o ar sossegar e os pássaros darem uma pausa na melodia. Faz a boca secar, faz arrepios e sorrisos.
Nesse momento é que percebemos nossa boa sorte, percebemos nós mesmos e aos outros e ao mundo, ao todo.
Fazem falta as tardes quietas, caladas em abraços.
Fazem falta as conversas, guiadas por olhares ininterruptos e suspiros, mais uma vez, indeléveis da memória.
Faz falta o cheiro de preguiça depois de um cochilo que veio sem avisar, fruto da segurança do teu corpo. Falta o instante antes de você abrir teus olhos, instante em que se demora porque sabes que te admiro.
Fazem falta as palavras que nos saem à boca puras, suaves e precisas. Palavras.
Faz falta o sussurro de um elogio, o brilho da pele e a marca de teu cheiro, perfume denso, vivo, que me faz dormir e acordar. Que me lembra de ti até em sonhos.
Faz falta a certeza de poder te dizer, um dia, quem sabe, que vou ficar pra sempre contigo, que pra sempre te cuidarei e que para sempre serei teu.
Só teu."
Faz uma baita falta um carinho especial, um afago sincero e despreocupado. Um olhar que seja, um suspiro tão profundo que te faz suspirar junto, de puro êxtase. Pura alegria e agradecimento por tê-lo presenciado.
Faz falta um colo, um ombro, um aperto de estalar as costelas.
Faz falta aquele curto momento, primeiro momento quando se reencontra, em que se pára, estático, olhando, vendo através das coisas, vendo dentro de quem se reencontrou. Momento curto, mas que faz o tempo parar à nossa volta. Que faz o céu intensificar a sua cor no momento, faz o ar sossegar e os pássaros darem uma pausa na melodia. Faz a boca secar, faz arrepios e sorrisos.
Nesse momento é que percebemos nossa boa sorte, percebemos nós mesmos e aos outros e ao mundo, ao todo.
Fazem falta as tardes quietas, caladas em abraços.
Fazem falta as conversas, guiadas por olhares ininterruptos e suspiros, mais uma vez, indeléveis da memória.
Faz falta o cheiro de preguiça depois de um cochilo que veio sem avisar, fruto da segurança do teu corpo. Falta o instante antes de você abrir teus olhos, instante em que se demora porque sabes que te admiro.
Fazem falta as palavras que nos saem à boca puras, suaves e precisas. Palavras.
Faz falta o sussurro de um elogio, o brilho da pele e a marca de teu cheiro, perfume denso, vivo, que me faz dormir e acordar. Que me lembra de ti até em sonhos.
Faz falta a certeza de poder te dizer, um dia, quem sabe, que vou ficar pra sempre contigo, que pra sempre te cuidarei e que para sempre serei teu.
Só teu."
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